O Tarot através do tempo.


O Tarô Mameluco — As raízes orientais do tarot

Quando pensamos na origem do tarot, muitas pessoas imaginam imediatamente os antigos tarôs italianos renascentistas, como o Visconti-Sforza. Porém, antes mesmo do surgimento dos primeiros tarocchi europeus, existia no Oriente Médio um sistema de cartas que provavelmente deu origem à estrutura dos baralhos modernos: o baralho mameluco.

O chamado “tarô mameluco” ainda não era um tarot propriamente dito, pois não possuía Arcanos Maiores, Louco ou Triunfos. Mas ele carregava aquilo que mais tarde se tornaria a base estrutural do tarot europeu: os quatro naipes.

Esses baralhos pertenciam ao Sultanato Mameluco, que governou regiões como Egito, Síria e Palestina entre os séculos XIII e XVI. Os exemplares mais conhecidos foram encontrados séculos depois no Palácio Topkapı, em Istambul, na Turquia, e hoje são considerados alguns dos ancestrais mais importantes dos baralhos ocidentais.

Os pesquisadores acreditam que o deck preservado no museu data aproximadamente do século XV, embora a tradição das cartas mamelucas seja provavelmente ainda mais antiga, remontando aos séculos XIII ou XIV.O mais fascinante é perceber como sua estrutura já se aproxima dos baralhos que conhecemos hoje.

Os quatro naipes mamelucos eram:

• Copas

• Moedas

• Espadas

• Tacos de polo

Mais tarde, quando esse sistema chegou à Europa através das rotas comerciais mediterrâneas, especialmente por cidades italianas como Veneza, os “tacos de polo” acabaram sendo reinterpretados pelos europeus como bastões ou paus.

Assim nasceram os quatro naipes clássicos do tarot:

Copas, Ouros, Espadas e Bastões.

Outro detalhe curioso é que as cartas mamelucas não possuíam figuras humanas ilustradas. Por influência da tradição islâmica medieval, evitava-se representar pessoas nas artes. Por isso, as cartas eram decoradas com padrões geométricos, arabescos e belíssimas caligrafias árabes douradas.

Mesmo sem imagens humanas, já existia uma hierarquia dentro do baralho:

o Rei, o Vice-Rei e o Segundo Vice-Rei.

Muitos estudiosos acreditam que essa estrutura inspirou posteriormente as cortes europeias dos tarôs italianos e franceses.

O tarot como conhecemos hoje surgiria apenas no século XV, na Itália renascentista, quando os artistas italianos adicionaram os Arcanos Maiores e transformaram as antigas cartas orientais em um sistema simbólico mais complexo e espiritual.

Por isso, embora o tarot tenha nascido oficialmente na Europa, muitos historiadores consideram o baralho mameluco como a raiz mais antiga de sua estrutura.

Ele representa a ponte entre Oriente e Ocidente.

Entre o jogo e o símbolo.Entre a arte e o mistério.

Compreender o baralho mameluco é compreender uma das primeiras sementes daquilo que, séculos depois, se tornaria o tarot através do tempo.


Os Arcanos Maiores e o Alfabeto Hebraico: uma tradição de preservação da sabedoria

Quando estudamos a história do Tarô, encontramos diferentes interpretações sobre a origem e o desenvolvimento de suas cartas. Do ponto de vista histórico, os primeiros baralhos conhecidos surgiram na Europa durante a Idade Média, inspirados em jogos de cartas orientais. Já a tradição esotérica apresenta uma visão mais profunda: a de que os Arcanos Maiores representam um antigo sistema iniciático destinado a preservar conhecimentos espirituais.

Segundo essa tradição, antigos sábios perceberam que um período de intolerância religiosa e de profundas transformações culturais colocaria em risco grande parte dos ensinamentos considerados sagrados. O avanço do Império Romano, seguido pela consolidação da Era Cristã, fez com que muitas tradições antigas fossem gradualmente abandonadas, perseguidas ou esquecidas. Entre elas, a língua hebraica, considerada pelos cabalistas como o idioma sagrado da Criação.

Para evitar que esse conhecimento desaparecesse completamente, esses ensinamentos teriam sido preservados por meio de uma linguagem simbólica. Em vez de permanecerem apenas em textos acessíveis a poucos iniciados, passaram a ser representados por imagens, arquétipos e símbolos capazes de atravessar os séculos sem despertar perseguições.

É nesse contexto que a tradição esotérica associa os 22 Arcanos Maiores às 22 letras do alfabeto hebraico. Cada carta passa a representar não apenas uma etapa da jornada humana, mas também uma força espiritual, um princípio universal e uma letra considerada portadora de um significado sagrado.Essa associação permitiu que o conhecimento cabalístico permanecesse vivo sob uma aparência simples. Para muitos, o Tarô era apenas um jogo de cartas ou uma forma de entretenimento. Para os iniciados, porém, cada Arcano ocultava um ensinamento, funcionando como um verdadeiro livro ilustrado de sabedoria espiritual.

Essa visão também ajuda a compreender por que tantos ocultistas dos séculos XVIII e XIX dedicaram seus estudos à relação entre o Tarô e a Cabala. Eles enxergavam nas cartas um mapa simbólico da evolução da consciência humana, no qual cada Arcano corresponde a uma etapa do desenvolvimento espiritual.

Embora os historiadores considerem que a associação entre os Arcanos Maiores e o alfabeto hebraico tenha sido sistematizada apenas muitos séculos depois do surgimento dos primeiros baralhos, essa tradição permanece extremamente influente dentro do estudo esotérico moderno. Ela oferece uma leitura rica em simbolismos e convida o estudante a perceber que o Tarô vai muito além da prática divinatória.

Assim, o Tarô torna-se uma linguagem universal. Cada imagem fala diretamente ao inconsciente, desperta reflexões e conduz o consulente ao autoconhecimento. Independentemente da forma como se interprete sua origem, sua maior força continua sendo a capacidade de transmitir ensinamentos profundos por meio dos símbolos.

Mais do que prever acontecimentos, os Arcanos Maiores convidam cada pessoa a compreender sua própria jornada, reconhecer seus desafios e descobrir que, muitas vezes, as respostas que buscamos já existem dentro de nós — aguardando apenas a chave correta para serem reveladas.


Antes da cartomancia: os primeiros tarôs da tradição milanesa

Muito antes de o tarô ser associado à adivinhação, à espiritualidade ou à leitura do futuro, ele era um jogo.

E talvez seja justamente aí que comece uma das histórias mais fascinantes das cartas.

No século XV, no norte da Itália, surgia uma nova forma de baralho: o tarocchi. Ao conjunto convencional de cartas de naipe eram acrescentadas cartas especiais, os chamados trionfi, ou triunfos. Essas imagens não pertenciam a um naipe comum. Representavam figuras e conceitos como o Imperador, o Papa, a Morte, a Roda da Fortuna, o Amor e o Mundo.

O que hoje chamamos de Arcanos Maiores ainda não tinha esse nome.

E também não existia, naquele momento, o tarô como instrumento de cartomancia.

Os primeiros tarocchi conhecidos eram utilizados como jogos de cartas de vazas, e as primeiras referências documentais ao tarô aparecem na década de 1440, no norte da Itália. A associação do tarô com a adivinhação surgiria somente muitos séculos depois.

A Milão dos Visconti

Entre os testemunhos mais preciosos dessa primeira fase estão três baralhos extraordinários relacionados às famílias Visconti e Sforza, governantes de Milão.

São eles:Visconti di Modrone (Cary-Yale)

Brambilla-Brera

Visconti-Sforza (Colleoni-Baglioni)

Produzidos aproximadamente entre as décadas de 1440 e 1480, esses três conjuntos estão entre os mais antigos tarocchi italianos sobreviventes. Eles são frequentemente estudados em conjunto como os chamados baralhos Visconti-Sforza.

Não eram baralhos populares.

Eram objetos de luxo.Suas cartas eram feitas sobre várias camadas de papel, recebiam pintura à têmpera e apresentavam fundos de ouro trabalhado, com técnicas de douramento, punção e decoração extremamente sofisticadas. Algumas cartas chegam a aproximadamente 18 × 9 centímetros, dimensões muito maiores que as de um tarô moderno.

Essas cartas pertenciam ao universo das grandes cortes italianas do Renascimento.

Visconti di Modrone: uma estrutura ainda em formação

O Visconti di Modrone, geralmente datado de aproximadamente 1440–1445, é considerado um dos mais antigos desses conjuntos.Atualmente sobrevivem 67 cartas, mas os pesquisadores acreditam que o baralho original pudesse ter pelo menos 89.

E ele guarda uma característica fascinante: possui cartas de Cavaleiro e Pajem femininas nos quatro naipes, além de representar as três virtudes teológicas — Fé, Esperança e Caridade.

Isso mostra que aquilo que hoje consideramos a estrutura “normal” de um tarô de 78 cartas ainda não estava completamente estabelecido.

Brambilla-Brera

O Brambilla-Brera é outro dos grandes sobreviventes dessa primeira geração milanesa.

Seu nome atual vem de um antigo proprietário, enquanto o baralho se encontra hoje na Pinacoteca di Brera, em Milão.Assim como os outros conjuntos, ele está relacionado à corte dos Visconti e é tradicionalmente associado à oficina de Bonifacio Bembo, embora pesquisas recentes tenham levantado novas hipóteses sobre os artistas envolvidos.Visconti-Sforza

E chegamos ao mais famoso dos três: o Visconti-Sforza, também conhecido como Colleoni-Baglioni.

Produzido pouco depois de 1450, provavelmente para Francesco Sforza, ele é um dos mais completos e importantes testemunhos do tarô renascentista.Hoje suas cartas estão espalhadas por diferentes coleções. 35 estão na Morgan Library & Museum, em Nova York, 26 na Accademia Carrara, em Bergamo, e outras permanecem em coleções particulares.

É justamente esse conjunto que se tornou uma das grandes referências para a imagem que temos hoje do tarô histórico.Quando ainda não existiam os “Arcanos Maiores”

É importante olhar para essas cartas sem colocar nelas conceitos que só surgiriam posteriormente.

Naqueles primeiros séculos, não existia ainda a ideia moderna de “Arcanos Maiores” e “Arcanos Menores”.Havia cartas de naipe e havia os trionfi, os triunfos.

Os naipes italianos eram Copas, Espadas, Bastões e Moedas, acompanhados pelas cartas da corte. A eles se acrescentavam as cartas especiais dos triunfos e o Matto, o Louco.

A própria ordem e hierarquia dos triunfos não era completamente padronizada. Como essas cartas não eram originalmente numeradas, a posição de determinados triunfos podia variar conforme a tradição local.

Portanto, quando olhamos para um Visconti, não estamos simplesmente olhando para um “tarô moderno antigo”.

Estamos olhando para um momento em que o próprio sistema ainda estava tomando forma.Do jogo à cartomancia

Talvez essa seja a parte mais surpreendente dessa história.

As cartas que hoje utilizamos para falar de personalidade, caminhos, escolhas e possibilidades nasceram em um contexto diferente.

O tarô renascentista era um jogo.

Sua função original não era prever o futuro.

A utilização do tarô para adivinhação aparece muito mais tarde, especialmente a partir do século XVIII, enquanto a associação mais ampla do tarô ao ocultismo e à cartomancia se desenvolveu posteriormente.

Isso significa que existe uma longa viagem entre o primeiro tarocchi renascentista e o tarô que conhecemos hoje.

Uma viagem que passa por diferentes cidades, artistas, escolas, sistemas simbólicos e formas de leitura.E é justamente por isso que conhecer os primeiros baralhos é tão importante.

Antes de existir o tarô como oráculo, existiu o tarô como imagem, arte, jogo e objeto de corte.

Uma coleção que conta uma históriaObservar os primeiros baralhos italianos em sequência é quase como assistir ao nascimento de uma linguagem.

Visconti di Modrone.

Brambilla-Brera.

Visconti-Sforza.

Três testemunhos da primeira fase milanesa.

Depois viriam outras tradições italianas, outros modelos de trionfi, novas imagens e diferentes formas de organizar os triunfos.Séculos depois, surgiriam os sistemas esotéricos e a cartomancia propriamente dita.

E então o tarô ganharia uma nova vida.De jogo de corte a instrumento de consulta.De objeto de luxo a baralho popular.

De tarocchi a tarô.Talvez seja justamente essa transformação que faça dele um objeto tão fascinante: o tarô não nasceu pronto.

Ele foi se tornando tarô ao longo dos séculos.


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